Quando recebi o convite de Barbara Bioni, fundadora e diretora criativa da Vortex, para assinar os textos que marcam o retorno do blog da marca, me perguntei como conduzir este primeiro artigo. Não demorou para perceber que todo o ecossistema da empresa parte de uma relação estreita com a arte e que esse encontro precisava ser apresentado a partir dos processos que dão origem a cada criação.

Na Vortex, o respeito pelo fazer, a pesquisa e a disposição para experimentar o novo estão diretamente ligados ao olhar de sua fundadora. Ao valorizar a inteligência humana, Barbara reconhece os conhecimentos, as técnicas e as pessoas que integram a cadeia produtiva da marca.

Sob o conceito “Let’s Make Art”, a Vortex adota o artwear ou "arte de vestir" como premissa de suas criações. A partir dessa perspectiva, símbolos são materializados para construir universos próprios, ligados à imagem mística de uma deusa, figura que aparece como referência de movimento e presença, chamada de “Vortex”.

Há pouco mais de um mês, a marca apresentou a coleção Oceano. Nesta primeira edição, vamos acompanhar o percurso do lançamento: do conceito que o originou às peças, uma curadoria de obras que ampliam as leituras possíveis sobre a coleção, além de  apresentar o uso do sutiã como parte visível nas últimas passarelas de moda. Ao final do texto, Barbara também compartilha suas referências, escolhas e expectativas para os próximos capítulos da marca.

O mar está pra peixe:  Desbrave a concepção da coleção “Oceano”

É certo que mar calmo não faz  bom marinheiro. Ao conduzir uma marca de pilares artísticos e autorais, Barbara revela que a coleção Oceano nasceu também de seu desejo de atravessar um período de introspecção. A imagem das ondas, no entanto, não se limita à instabilidade. Ela também aparece como um convite à pausa, aos momentos em que é preciso interromper o movimento para reconhecer o próprio percurso. “Há alguns bons anos, não sei o que significa na prática zona de conforto. Parece que tenho uma inclinação a eternas translações. Nadei contra a maré por tantas vezes e foi ali que envelheci. A sensação é como se um milhão de anos se passassem. E, talvez agora, gostaria de contemplar os portos silenciosos, vagarosamente, antes que amanheça e eu precise retornar à minha maratona”, conclui.

É desse desejo de pausa e escuta que nasce a coleção. “O desejo de vestir o oceano surgiu da necessidade de me entregar ao meu silêncio, à minha gravidade distorcida e trazer a minha nostalgia. Acho que, no fundo, estamos sempre lembrando de algo indiretamente”, explica Barbara.

No quarto lançamento da Vortex, essa memória ganha forma por meio do vestuário. A coleção parte da lembrança do toque salgado da água do mar sobre a pele e transforma a experiência do oceano em matéria, textura e movimento. O tule, as rendas e as estampas aparecem combinados a elásticos e a modelagens que mantêm recortes estratégicos, criando uma relação entre exposição, contenção e liberdade. 

Look like art. Feel like art: Cinco pinturas para mergulhar no oceano

A graça de ver o mundo com olhos curiosos, é estar sempre disposto a conhecer uma nova interpretação artística do universo. Após te apresentar o último lançamento da Vortex, a curadoria abaixo te guia pelos trabalhos de cinco artistas, sendo quatro deles brasileiros, onde as águas são interpretadas através de seus sentimentos e técnicas de pinturas. Check and just feel the waves.

 

Série Sonhei com dois Oceanos Paralelos, 2025  por Sophia Pinheiro

 

Mergulhar no inconsciente e reencontrar partes perdidas de si, 2026 por Jesso Alves

Bruma e Mar, 2023 por Pàulla Scàvazzini

A Receding Sea, 2026 por Ivan Pokidyshev

Araí e Caête, 2025 por Débora Marques

Na passarela e à mostra: sua lingerie foi feita para ser vista

Certa vez, Barbara me contou: “eu gostaria que os consumidores usassem Vortex além do pole dance, que fizesse parte da composição de seus looks”. Ao criar sutiãs, hot pants, calcinhas e acessórios essenciais, a fundadora não define  a marca como uma loja de lingeries e sim como  Art to Wear, uma definição para trabalhos autorais criados como arte, portanto  desenvolvidos para serem exibidos.  Parece até contraditório, pensando que as modelagens de roupas íntimas, durante anos era quase proibido de aparecer.

Hoje, diferente dos anos 2000, quando o sutiã aparecendo ainda era visto como rebeldia, a roupa íntima é incorporada em passarelas internacionais.  Elas estão à mostra e trabalhadas. 

Nos últimos desfiles, a exposição da lingerie deixou de ser acidente para virar parte visível da composição. Na Fendi, verão 2027, durante a Milano Fashion Week, Maria Grazia Chiuri brinca com a sensualidade: o sutiã  aparece como base de looks, ou seja, ocupando o papel e uma blusa ou top. A peça íntima não é mais camada escondida, é ponto de partida do visual, assumida como elemento de estilo e desejo. A coleção parece ser inspirada na frase escrita na parede da ante sala do desfile “I like my body when it is with your body”,  trecho do poema I like my body (1925), do estadunidense E. E. Cummings, que na tradução diz: eu gosto do meu corpo quando ele está com o seu.  

                            

Imagens: Fendi Spring/Summer 2027

Na Prada, verão 2027, também na MFW, Miuccia Prada e Raf Simons levam a ideia adiante: sutiãs e tops aparecem combinados a saias. A coleção fala de autonomia feminina e controle sobre o que se mostra e o que se revela. Um pouco antes, na semana de haute couture, a coleção  outono-inverno da Chanel,  mostrava calcinhas e sutiãs de modo mais sutil, em meio à uma atmosfera que baseada em fábulas e contos de fada. As peças parecem quase à mostra, compondo os looks, sem ser a parte principal dele, cobertos por tecidos transparentes. 

                                       

             Imagem: Prada Spring/Summer 2027                                 Imagem: Chanel Haute Couture Outono/Inverno 2027

O New York Times Fashion & Style, coluna de moda do jornal New York Times, questionou há poucos dias se um sutiã pode ser uma blusa. Para a diretora criativa da Vortex,  não há preocupação se a peça pode aparecer, mas “como você quer que apareça?”. Barbara acredita que seus produtos têm a ver com intenção. Quando uma peça é escolhida de modo consciente, deixa de ser invisível ou um “erro desleixado", para virar extensão do que você decide ser e mostrar.

A convite da fundadora, que tal você…

Ler: Feitiche-Moda, Sexo e Poder

“Estou lendo Feitiche-Moda, Sexo e Poder no momento, escrito pela historiadora e diretora do museu do Fashion Institute of Technology (FIT) Valerie Steele. Publicado pela Rocco em 1997 no Brasil. Eu me interessei pelo fetichismo primeiramente pela sua estética, da minha adoração pelos harness, esse uso de elástico tão presente nas peças da Vortex. Então iniciei uma genuína investigação, que não se limitou apenas ao livro, também iniciei uma pesquisa por eventos e encontros de pessoas fetichistas”, explica a Barbara. 

Ouvir: Jazz anos 40 e Brent Faiyaz

“Quando preciso criar em fluxo, geralmente coloco jazz anos 40, aqueles metais me mantém focada e às vezes podem inclusive influenciar nas minhas linhas. Já no carro,  ouço muito Poison, uma canção de Brent Faiyaz”, indica. 

Conhecer: Bienal Internacional de Curitiba e bar de cultura espanhola e latinoamericana

“Tenho duas indicações em Curitiba, localização do ateliê da Vortex. A exposição Limiares, 16º Bienal Internacional de Curitiba, no Museu Oscar Niemeyer. Como passeio noturno, sugiro uma ida ao Negrita Bar Café, espaço de gastronomia e cultura espanhola e latinoamericana”, recomenda. 

Experimentar: Aulas de pole dance

“Por último recomendo fazer aula nos studios de pole: Gravitarte, Elô Alcantara e  Plural. As duas escolas trabalham com arte e movimento, e também estão localizadas em Curitiba”, conclui. 

Você já se apaixonou alguma vez na vida?

Calma, não precisa ficar tensa nem responder agora. Eu só queria introduzir uma conversa sobre a próxima coleção da marca. Se você está precisando de uma dica, aguarde: Conselhos Amorosos está chegando. A Vortex te guiará através da ternura, da força e da feminilidade.